Crise tepeêmica
Há dias em que tudo parece tão estranho. Nós mesmas não nos reconhecemos ao olhar no espelho. Cadê aquele otimismo? A alegria contagiante? O brilho do olhar? Aquela determinação e segurança invejáveis? Acho que esta má sensação que derruba nossa auto-estima vem quando estamos iminentes a tomar alguma decisão relevante. Ah, que coisa desgastante...
Cansa se fazer de uma mulher moderna e independente. Trabalhar, estudar, pagar contas, cuidar da família, cuidar da gente mesma... A necessidade de se fazer escolhas atrás de escolhas que, não raramente, vêm acompanhadas de renúncias e cobranças. Não ter tempo e o direito de sentir-se frágil e duvidosa mesmo que, contraditoriamente, viva no constante dilema em conciliar satisfação pessoal e profissional. Por que não podemos simplesmente fazer o que nos dá prazer sem pesar a parte financeira, por exemplo? Não tem nada mais insuportável do que colocar o dinheiro à frente de tudo. Talvez eu seja uma louca mesmo em pensar assim e por abrir mão de uma situação confortável para arriscar novos e desconhecidos caminhos. Uma louca, mas com seus valores! Tá, e o que importa isso quando você é uma minoria?
Ah, acho que queria voltar a ser criança para não ter que ter certeza de nada e nem vergonha de agir instintivamente, sentir medo ou chorar. Ter como única preocupação fazer a lição de casa no intervalo entre as brincadeiras de rua. Putz, mas nem isso existe mais... Há momentos também em que gostaria de ser Amélia. As feministas que me desculpem, mas coisa chata essa de ficar posando de mulher-maravilha. Autosuficiente, o escambau! “Toda mulher quer ser amada, toda mulher quer ser feliz...”. Ok, “...às vezes se faz de coitada”. Mas a verdade é que é muito bom ter com quem contar e se sentir protegida. Alguém que possa te ouvir, incentivar e tomar iniciativas por você de vez em quando.
Nenhuma mulher quer um substituto para o pai. Nem alguém para pagar as contas como devem imaginar alguns machistas de plantão. É algo mais no estilo herói-romântico da idade média, sabe? Tudo bem, não precisa vir montado em um cavalo branco e nem partir para o combate decepando cabeças ao ser contrariado ou sentir ciúmes, mas que tal resgatar um pouquinho das convenções? Fazer a corte? Nada contra as mulheres partirem para a conquista, mas eu, além de tudo, devo estar ficando velha: prefiro ser conquistada. Porque no fundo fica aquele pensamento preconceituoso de que “macho” não pode recusar investidas femininas. Aí, a auto-estima vai por terra do mesmo jeito.
O ideal seria encontrar esse herói-romântico-moderno: viril, protetor, sensível, inteligente e bem-humorado. Alguém que compartilhe momentos e ideais. Que não a deixe se sentir sozinha estando acompanhada. Que respeite e saiba lidar com suas crises existenciais e discernir quando sua presença de espírito se faz necessária.
Parece utópico e fútil. Também parece mais salutar sonhar e se eximir das responsabilidades, se desligar dos problemas uma vez ou outra. Limitar-se a se preocupar em preparar o jantar a dois, a escolher o vestido para usar à noite e em desfrutar dos momentos de troca de carinhos. Uma vida tranqüila e praticamente perfeita. Como antigamente.
“When the night has come And the land is dark And the moon is the only light we'll see No i won't be afraid No i won't be afraid Just as long as you stand, stand by me
So darling, darling stand by me Oh, stand by me, oh, stand Stand by me, stand by me
If the sky that we look upon Should tumble and fall Or the mountains should crumble to the sea I won't cry, i won't cry No i won't shed a tear Just as long as you stand, stand by me
Whenever you're in trouble Won't you stand by me Oh, now, now, stand by me Oh, stand by me, stand by me, stand by me”
(Veja e ouça: Stand by me – John Lennon)
Escrito por Kátia Gomes às 16h00
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|